erros e acertos do marketeiro de dilma
Marketing

Os Erros e Acertos do Marketeiro de Dilma

Aqui na Outbound, acreditamos que a prática é o melhor método de ensino. Sair um pouco da literatura e vivenciar o mundo real está enraizado na nossa prática de gestão, desde o nosso modelo de consultoria aos próprios treinamentos internos.

É por esse motivo que temos o costume de fazer análises práticas sobre conteúdos que contêm uma carga de conhecimento teórico grande, como por exemplo marketing e vendas.

Já falamos sobre como o Batman pode te ensinar a vender mais, o que os Simpsons podem ensinar sobre prospecção e inclusive as lições de Lula para ser um bom vendedor.

Como a política está no centro das atenções do brasileiro hoje, resolvemos fazer um texto abordando os fatores práticos, em termos de marketing, sobre a presidente e o seu caminho para alcançar o cargo.

Pode ficar tranquilo que esse artigo é livre de ideologias e teorias da conspiração. Nossa intenção é fazer uma análise crítica quanto às práticas de marketing adotadas durante a campanha eleitoral de Dilma.

Afinal, se gostamos de estudar casos práticos sobre marketing e vendas, existe um melhor exemplo do que o assunto que está entre os mais comentados nas redes sociais?

Portanto, aproveite este texto para aprender mais sobre marketing com a nossa atual presidente. Ressaltamos os principais erros e acertos desse caso e esperamos que eles possam trazer insights interessantes para você.

Um dos apelidos de Dilma hoje é Coração Valente. Em termos de marketing pode ter múltiplos significados. Mas qual será ele?

Um dos apelidos de Dilma hoje é Coração Valente. Em termos de marketing pode ter múltiplos significados. Mas qual será ele?

Durante sua campanha, Dilma cometeu alguns erros básicos na área de marketing. O marketeiro responsável, João Santana, ficou marcado por usar algumas táticas consideradas desleais e invasivas.

Se a disputa eleitoral fosse feita no google, o PT seria consagrado como o líder em táticas black hat!

Mas também sabemos reconhecer os acertos do Sr. Santana e sua equipe, afinal ele conseguiu atingir o seu objetivo final: Dilma foi eleita, mesmo com diversas baixas ao longo do caminho.

Só queremos que você pense que a eleição não é um processo extremamente pontual. Seus resultados possuem um reflexo contínuo ao longo do mandato do candidato eleito, assim como um serviço que não pode ser desvinculado da venda.

Se nós possuíssemos apenas um bom time de Marketing e Vendas, fechando diversas contas por dia, mas com problemas no atendimento dos clientes e os resultados alcançados, cedo ou tarde o castelo de cartas construído seria levado pelo vento (ou até mesmo uma marolinha – ok, foi só uma brincadeira, juro!).

Por isso, vamos pensar na eleição como um processo de vendas para todo o mandato da presidente e analisar os erros e acertos da campanha, do ponto de vista técnico, para que você aprenda ainda mais sobre marketing e suas consequências!

Os Erros

1. Vendeu gato por lebre

De acordo com o site Dicionário informal, vender gato por lebre é uma expressão que significa ser enganado por alguém ou algo que você pensa que é uma coisa e na realidade é outra.

Pois é, eu aposto que quando você leu o título deste artigo você pensou nesse erro clássico da política.

Bastante simples: a presidente realmente vendeu gato por lebre com as suas promessas durante campanha. As principais cartas na manga usadas por Dilma durante os debates acabaram por traí-la durante a sua gestão.

Vamos revisitar algumas das principais promessas feitas e que tiveram o efeito contrário após a posse:

  • “A conta de luz das famílias brasileiras vai ficar 18% mais barata” – Na verdade, o imposto sobre energia subiu quase 30%.
  • A pátria educadora sofreu corte de R$ 587 milhões nos gastos mensais.
  • O Banco Central subiu três vezes seguidas a taxa básica de juros, a maior desde 2011.
  • Aumentaram-se os impostos. Logo nos primeiros dias de janeiro, o governo dobrou a taxa de IOF (de 1,5% para 3%), aumentou em 22% os tributos sobre a gasolina, subiu a alíquota para importações (de 9,25% para 11,75%) e aumentou o IPI sobre cosméticos.

Infelizmente, as propostas de Dilma ficaram apenas no plano teórico. Mais do que isso, as promessas foram descumpridas – um belo eufemismo para mentira, não é mesmo?

Esse é um grave erro de marketing.

Infelizmente, não entregar o que se promete e ainda continuar tendo apoio realmente só acontece na política.

Você se imagina entregando algo totalmente fora do escopo para o seu cliente e ainda sim continuar com um NPS alto? Aquele cliente será um promotor da sua marca?

Contudo, essa medida trouxe bastante impopularidade para a presidente. Afinal, quando as pessoas são atingidas no órgão que mais machuca – o bolso – as coisas começam a pesar.

Falamos muito aqui no blog que durante um processo de venda deve haver um claro alinhamento de expectativas. O cliente sabe o que deve cobrar de você e você sabe o que deve entrega para o cliente.

No campo prático e teórico empresarial, essa relação é bastante simples. Por que será que na política essa relação se torna tão nebulosa e complicada?

2. O erro com a Matriz de Objeções

Todo leitor do nosso blog já se deparou com esse termo em um outro momento, não é? A Matriz de Objeções é um documento que ajuda todo vendedor a se guiar ao longo do seu discurso, pois ela reúne todas as possíveis objeções às ideias apresentadas.

Uma boa matriz de objeções acaba por ajudar o vendedor nos momentos difíceis, quando um obstáculo é apresentado por seus leads. Ela evita aquelas situações onde um silêncio estranho se forma após uma pergunta complicada, por exemplo, ou o surgimento do “vendedor gago”, que se perde em meio à explicação e perde credibilidade perante o interlocutor.

Por vezes, ao longo dos debates, nós vimos perguntas sem nexo:

Mas, o que mais incomodava, era a rigidez do discurso adotado pela presidente ao longo das suas tréplicas. Em sua grande maioria, ficava claro que, após fazer uma pergunta, a tréplica já estava pré-definida, ou seja, não era adaptada de acordo com as respostas do outro candidato.

Um bom exemplo é esta tréplica de Dilma:

Você consegue perceber que ela já possui as anotações inclusive sobre sua tréplica, mas de maneira alguma ela parece responder o que foi dito pelo outro candidato. Logo, suas tréplicas passam a ser uma continuação das perguntas, concluindo assuntos sem nexo com a resposta recebida.

Ao longo de toda a campanha, vimos situações onde a presidente parecia se perder em meio às próprias respostas.

Por exemplo, se uma pessoa formada o perguntasse a respeito da situação atual da economia, a diminuição da demanda de mão de obra e como você procura contornar esse problema. Qual a melhor opção de resposta? Você pode tratar dos seus programas de aceleração da economia, dos investimentos (por favor, não me julgue) do BNDES ou qualquer outro ponto que a faria se recolocar em sua área, não?

A presidente conseguiu indicar o PRONATEC, programa de cursos técnicos do governo.

Imagine você, que suou para pagar uma faculdade (ou estudou para entrar numa pública), passou no mínimo 4 anos estudando, se formou, teve experiência na sua área por 20 anos e, agora, em meio à crise, está procurando emprego.

Vale começar um curso técnico para se recolocar? :/

Infelizmente, a matriz de objeções da presidente se mostrou inflexível, novamente, e a resposta, praticamente automática, saiu pela culatra e se tornou um grande motivo de crítica.

Se você tirar um tempo para assistir aos debates novamente, vai perceber o quão programadas são as tréplicas, com pouco espaço para alterações de acordo com as respostas recebidas. Logo, a comunicação se torna distante do público, que não vê ligações ao longo de todo o discurso…

Contornando problemas com agressividade

No entanto, ainda mais do que os problemas de discurso, nós sabemos que a política brasileira se torna cada vez mais um circo. Vemos o mesmo espetáculo, hoje, se repetindo na campanha americana, por exemplo, com participação exacerbada de Donald Trump.

Sempre me baseei em um princípio muito simples para tratar de discussões. Talvez você já o tenha visto, é um provérbio chinês:

“O medíocre discute pessoas.

O comum discute fatos

O sábio discute ideias.”

Infelizmente, esse erro é sim, parte de toda uma palhaçada (sem analogias com o Tiririca, por favor!) que se tornaram os debates e discussões entre candidatos. No entanto, ainda é inegável que a máquina petista se tornou especialista em destruir adversários utilizando de diferentes meios.

Desde os blogueiros “socialistas vermelhos” sustentados pelo governo federal, passando pelos artistas (que, quase sempre, conseguem uma graninha para os seus projetos através da Lei Rouanet), até a própria militância, a internet se tornou uma arma excelente para minar a credibilidade de adversários e seus simpatizantes.

Nós podemos ver exemplos mais formais, como esse comunicado do ex-presidente, incitando a sua base a “utilizar essa ferramenta fantástica para divulgar os próprios projetos”:

lula facebook

Outros exemplos, esses mais agressivos, mostram a comunicação agressiva da base. A opressão natural feita pelos seguidores petistas passa dos limites por vezes (e no lado oposto, o mesmo ocorre):

MENSALAO-JOAQUIM-BARBOSA-2013-229-size-598 fizeram-cair face-quaqua Comentário Latuff

No entanto, quando seus simpatizantes postam, o PT pode ser eximido da culpa, visto que cada um é livre para fazer o que quiser.

Mesmo assim, a última campanha da presidente foi marcada por uma forte crítica a uma ex-aliada, Marina Silva, que chegou a declarar que a campanha feita contra ela era desleal. Os ataques do PSDB, em meio à máquina eficiente do PT de destruir uma imagem, foram até desconsiderados, principalmente tendo em vista a carreira política de Marina, que deixou o partido para fundar um novo (Rede).

Ao longo dos debates, era visível que o nível das conversas da presidente não tratava de ideias, muito menos de fatos. Boatos foram citados por diversas fontes e, por favor, não procure eximir um lado da culpa justificando que o outro o faz ou apenas que a política é assim.

O Partido dos Trabalhadores foi condenado por boa parte dos eleitores ainda nas urnas, que se chocaram com as agressões divulgadas.

Dilma, principalmente, tirava proveito da figura do ex-presidente, que procurou incitar o medo através de declarações falsas por regiões mais necessitadas. Até mensagens foram enviadas a eleitores dessas regiões com ameaças sobre o fim do programa mais badalado do governo, o Bolsa Família, em caso de derrota da situação.

Mesmo assim, os problemas continuavam a aparecer e a única tática, ou saída, encontrada, era a de apontar ainda mais problemas do oponente.

Se Dilma era questionada sobre o desemprego, procurava apontar que durante o governo do PSDB (com FHC), os resultados eram piores do que no seu governo e no de Lula.

O mesmo quando se tratava de segurança, chegando a apontar dados (que podem até ser reais) com uma lógica completamente nonsense (é só ver o vídeo da presidente no Erro 2, citado neste artigo).

Infelizmente, o PT contribuiu para um debate ainda mais raso, sem apresentar ideias concretas do que poderia ser feito para a evolução do país, seja em termos sociais, econômicos ou políticos.

Logo após as eleições já foi possível enxergar o reflexo dessa postura.

Sem uma jornada clara e definida, Dilma se afastou ainda mais da base aliada, perdendo apoio de seus principais pilares (incluindo aqui, o próprio partido). Joaquim Levy, de perfil próximo a Armínio Fraga, que seria o Ministro da Fazenda de Aécio, substituiu Guido Mantega em meio ao furacão na economia brasileira.

Furacão esse que foi gerenciado e empurrado com a barriga até depois das eleições, resultando em uma deterioração da situação econômica que acabou por fragilizar ainda mais a posição política da presidente, já vitoriosa nas eleições.

Corte de investimentos em educação, diminuição nos repasses a programas sociais, tudo contribuiu para aumentar a destruição…

Infelizmente, se tornou concreto que todo o discurso agressivo procurava apenas minar a credibilidade dos adversários, que entraram num jogo onde o PT é realmente superior. Tal postura volta a ter como consequência o primeiro erro citado aqui: vender gato por lebre.

Ao criticar os adversários, o governo procurava se distanciar de situações desfavoráveis, mas sem apresentar um caminho claro para conseguir alcançar os objetivos utópicos que defendia.

Seria o mesmo que o seu time de Marketing e Vendas trabalhar, durante uma negociação, apenas criticando as soluções concorrentes. Se, no fim, você conseguir fechar o negócio, precisará de uma solução própria que seja viável e o governo não a tinha.

Esse erro segue um caminho claro que se distancia da Venda Consultiva, onde você procura entender as mazelas e problemas de seus interlocutores para oferecer soluções assertivas. Infelizmente, o resultado que temos hoje denota o quão errada era a estratégia e como o foco da campanha estava apenas em conseguir a reeleição, sem um projeto claro de recuperação do cenário em que o Brasil se encontrava e, desde então, só piorou.

3. Foi vendida a gestão PT e não Dilma

Dilma Roussef, até hoje, é a presidente com a maior taxa de rejeição da história. E grande parte disso se deve à forma como ela vendeu a sua reeleição.

Grande parte das propagandas políticas que assistimos, tratavam apenas de dois pontos: o legado petista, pautado nas “realizações” do governo Lula, além do discurso do medo – que falaremos mais a frente.

Justamente por vender o legado Lulo-petista, a presidente perdeu qualquer identidade própria, ainda mais porque suas propostas nada mais eram do que continuísmo do que já havia sido feito.

Todas as bandeiras, como Minha Casa Minha Vida, Pronatec e etc, eram vendidos como aperfeiçoamentos das bandeiras defendidas pelo Lula em seus mandatos, como a democratização da educação e acesso a moradia.

Sabemos que na prática, essas bandeiras não são petistas. Mas, como nosso foco é falar daquilo que foi vendido para nós na eleição, não tem como não citarmos esse fato.

O problema é que, quando o cenário começou a piorar, a Dilma deixou de ter um porto seguro. Sempre que ela defendia alguma das bandeiras petistas, o resultado final era um ode ainda maior ao nome do ex-presidente.

Enquanto isso, ela passou a ser vista cada vez mais como incompetente. Além de não ter uma bandeira própria, não conseguiu seguir com qualidade com os acertos dos governos anteriores.

Isso porque nem sequer citamos os debates, onde a Dilma mais evocava o nome do ex-presidente do que o seu próprio.

Resumindo: um presidente que tenta reeleição, se quiser ter sustentação argumentativa, precisa de um legado próprio.

No final das contas, por que vocês acham que é MUITO difícil atacar o Lula e FHC sem enfrentar represálias pautadas em argumentação lógica? Um deles acabou com a hiperinflação enquanto o outro aproveitou a maior fase de crescimento da história mundial para realizar várias políticas sociais.

Uma ótima analogia para esse caso pode ser feita em uma empresa de serviços. Se você possui poucos cases práticos dentre a sua base de clientes, existe algo errado.

Não adianta de nada contar experiências anteriores sem aliá-las a resultados presentes.

Aqui na Outbound Marketing, por exemplo, nós contamos a história de como começamos nas áreas de Marketing e Vendas e nosso resultado em uma primeira experiência (confere aqui no texto sobre a nossa equipe, é bem curtinha).

No entanto, já produzimos diversos cases também, sejam eles internos ou de clientes, com resultados iguais ou melhores:

Case We Do Logos

Case We Do Logos: Captura de Leads

Nosso case interno

4. Habilidades de retórica da linha de frente

Não se pode negar que o ex-presidente Lula possui uma capacidade incomum de mover as pessoas com seu discurso.

Parte do projeto (e da divulgação) da primeira campanha de Dilma tratava justamente dessa falha, buscando torná-la um ponto forte da então candidata. Com perfil mais “técnico”, procurou-se vender a imagem de alguém capaz de dar continuidade aos resultados conquistados por Lula (que surfou na onda de alta das commodities e teve sorte com a pequena “marolinha” que afetou o Brasil em 2008).

Até aqui, podemos entender bem que esse discurso era válido.

No entanto, 4 anos como presidente deveriam ter ensinado algo mais a Dilma, visto que discursar em público se tornou uma constante em sua agenda.

Os diversos momentos cômicos e, por vezes, trágicos, trouxeram um ar ainda mais absurdo à campanha. Com dificuldades claras de conectar ideias, Dilma dificultava ainda mais o trabalho do seu time.

Sua falta de carisma permanecia ali, mesmo que com poucas melhorias, mas não é possível entender como ela não foi melhor trabalhada para situações como as que vivenciou nos debates. Tudo isso culminando em fatos bizarros, como a famosa queda de pressão, condenada por muitos como apenas uma desculpa da presidente para sua enrolação e falta de argumentos:

Isso é fácil de ser julgado, pois já conheci pessoas com problemas de dicção que conseguem desenvolver um raciocínio claro em público após um bom treinamento (e, no máximo, algumas sessões de fonoaudiologia).

Com nossos clientes, por exemplo, focamos em entregar resultados concretos, mesmo quando seu time possui pouca experiência na área (assim como ocorre aqui na própria Outbound Marketing).

Uma das maneiras de trabalhar essas dificuldades de retórica está no coaching, especialmente através do role-playing.

Quem já está familiarizado, entende que simular uma situação real de negociação/debate com supervisão e feedback constante pode fazer muito bem ao profissional da área comercial. Por que, então, não pensar no mesmo para Dilma?

Ao contrário de Eduardo Jorge, que parecia, por vezes, despreparado até para apresentar ideias, Dilma já possuía cobrança ainda maior pela sua experiência no primeiro mandato e, mesmo assim, decepcionou bastante, afetando sua credibilidade como líder. Não bastassem os diversos relatos, vindos de fontes distintas, que tratavam da dificuldade de gerenciamento de equipes da presidente.

Qual candidato à presidência gostaria de passar tal imagem?

Como o Marketeiro de Dilma, ao menos, não procurou trabalhar intensivamente essas questões e garantir que a confiança necessária poderia ser passada através da postura da presidente em debates e discursos?

Menção honrosa: as mancadas de Dilma

Os debates foram um capítulo a parte na eleição de 2014. Foi basicamente um show de horrores (analisando-os como um todo).

Grande maioria dos candidatos, como Luciana Genro e Levy Fidelix destruíam os nossos ouvidos com propostas que beiravam o surreal.

Quem não se lembra de ter ouvido da candidata do PSOL, a palavra capital financeiro à exaustão. Isso sem citar as considerações desconexas do Levy, o candidato do trem voador!

O sopro de racionalidade deveria vir da atual presidente do país e de seus principais oposicionistas. Mas o que vimos, foi justamente o contrário!

A presidente continuava gaguejando e fazendo declarações absurdas… Uma das já citadas aqui é a famosa história do Pronatec.

Dilma Roussef

Se as coisas tivessem acabado nos debates, ainda ficaríamos mais tranquilos.

O problema é que depois, ainda fomos recheados com discursos com homenagens à mandioca, Homo e Mulheres sapiens, dentre outras bizarrices dignas do Sensacionalista.

Um ponto que o marketeiro da Dilma deveria ter focado, e muito, é na retórica e também em seguir um roteiro. Nos debates, se ela já tinha dificuldade para ir bem quando seguia o roteiro (uma verdadeira Barsa), sempre que saía, o trem descarrilhava.

Lembre-se: caso você tenha dificuldade de lidar com plateias e afins, siga o roteiro possível e não invente. O risco de você ser comparado à nossa presidente é alto, e isso não é bom!

No caso das tréplicas, que já citamos, no entanto, é impossível prever com exatidão a resposta de terceiros e, até por isso, citamos a dificuldade de Dilma em manter uma razoável linha de raciocínio durante suas falas (onde o coaching poderia ajudar, e muito).

Caso queira ver um bom discurso, é só pesquisar os feitos pelo Obama. Muitos podem não concordar com as posições dele, mas, é inegável a qualidade de seus discursos!

Os Acertos

1. A estratégia de Medo, Incerteza e Dúvida (FUD)

Pois é… A sinceridade gera esse tipo de problema. Os ataques criados por Dilma e sua equipe durante toda a campanha foram naturalmente ruins. Nós o julgamos como um erro, em grande parte, porque não possuíam uma proposta que apoiasse ataques pontuais.

Em toda campanha política (e em diversas negociações de vendas), infelizmente, se trabalha com a estratégia FUD (Fear, Uncertainty and Doubt). Ela procura gerar essas sensações no público-alvo, minando a credibilidade do concorrente ao mesmo tempo em que posiciona um candidato ou produto como a salvação para os potenciais problemas apresentados.

O marketeiro de Dilma, com certeza, trabalhou essa estratégia com afinco. Já citamos diversas situações logo acima, mas a propaganda abaixo deveria ser usada em sala de aula para exemplificar essa estratégia:

Confira aqui a propaganda utilizada pelo PT com a estratégia FUD

O acerto foi grande, e funcionou. O Nordeste, por exemplo, votou em peso na candidata da situação e presidente. Lula foi acusado de fazer ameaças veladas sobre o fim de benefícios sociais, como, novamente, o Bolsa Família.

Naturalmente, Marina e Aécio polarizaram contra a chapa Lula-Dilma, cujos 12 anos de governo, até aquele momento, ainda traziam alguns indicadores positivos para se apresentar.

Dilma comparava o governo de Lula e FHC a todo momento, buscando relembrar os tempos de inflação alta em meio à recuperação econômica, pós Plano Real, citando as crises vivenciadas pelo tucano. Ironicamente, Aécio perdeu em seu próprio estado natal, Minas Gerais, com seu candidato ao governo sendo derrotado ainda no primeiro turno por Fernando Pimentel (PT), grande amigo pessoal de Dilma.

Marina, por outro lado, já parecia uma figura frágil e se colocou em posição de vítima ao receber os ataques. A falta de confiança acabou por diminuir a sua base de votos e ela perdeu, ao fim, a segunda posição nas pesquisas para Aécio.

Novamente, a campanha de Dilma foi marcada por essa estratégia e isso, com certeza, a ajudou a conquistar a vitória nas urnas.

No entanto, o uso apenas dessa estratégia, sem a apresentação de um projeto, é que a torna um erro, simultaneamente.

Se você estiver competindo com outra empresa durante uma negociação, não terá grandes resultados se estiver concentrado em apenas criticar o seu concorrente, não é?

Por isso, é preciso ressaltar que a falta de um plano concreto por parte do governo ainda se mostra como uma falha, pois o discurso de Medo, Incerteza e Dúvida era baseado em falsas verdades.

Uma delas é a da própria situação econômica, que explodiu nas mãos do governo logo após o segundo turno…

2. Utilização do legado favorável do ex-presidente Lula ao seu favor

Lembra quando falamos lá no começo, que um dos erros da Dilma foi usar apenas o legado deixado para ela?!

Isso não foi como um todo ruim. Inclusive, para ela, DURANTE a eleição foi excelente. Sem a força política de seu antecessor, ela não teria conseguido se eleger nem para seu primeiro mandato.

Com a bandeira da inclusão social, crescimento econômico, aumento da classe média e lucro das empresas, Dilma conseguiu agradar gregos e troianos. Nessa parte, ponto para João Santana!

Logicamente, ela não foi responsável por nada disso. A magia do marketing político é fazer o Quasimodo parecer um príncipe. O maior legado da Dilma é a Lava Jato, operação que enfrenta sua feroz resistência.

Quasimodo_KH

Também é interessante observarmos que, se Dilma tivesse construído algum legado em seu primeiro mandato, hoje ela estaria relativamente mais tranquila.

Todos os eleitos costumam se aproveitar dos legados deixados por seus anteriores, seja aproveitando de mancadas para se eleger, caso Obama com Bush, ou aproveitando o que foi feito e é visto de forma positiva pelo povo para se vender, exatamente o que aconteceu aqui no Brasil.

Podemos dizer, inclusive, que se não fosse pela Lava Jato, mesmo sem ter construído nada de sólido e bom para o país, Dilma não estaria passando pela situação atual. É difícil um presidente ser deposto devido a uma recessão, sozinha.

Então, antes de me criticar, me chamando de Dilma por criticá-la por utilizar o legado do Lula para se reeleger e depois elogiá-la por isso, pense no contexto.

Então, novamente, surge aqui um ponto que pode ser levado para o lado bom, um acerto de João Santana, mas que, ao mesmo tempo, contribuiu para a atual situação…

Se não houvesse denuncias da Lava Jato, vocês acreditam que haveria todo esse clamor popular por sua queda?! Utilizar o legado anterior sem construir seu próprio só é ruim quando você está sendo acusado por várias falcatruas e o país está passando por uma recessão de -4%.

O máximo que a Dilma iria conseguir se não fossem esses fatores, é o esquecimento histórico. Agora, nem isso mais parece uma opção.

3. Comunicar com as personas corretas

Se tem algo que devemos tirar o chapéu para a campanha do PT é o fato de eles terem sido assertivos no público alvo da sua campanha.

A campanha de Dilma fez um bom trabalho em segmentar e definir as suas personas. O perfil de eleitor que estaria alinhado com as propostas do partido, independe de qualquer outra contra-proposta ofertada por qualquer outro partido.

Com o foco nesse perfil, todo o conteúdo gerado era diretamente direcionado para esse segmento. Basicamente, o PT dialogava apenas com esse público. Em nenhum momento o partido demonstrou interesse em convencer os eleitos “em cima do muro”, mas sim inflamar os seus seguidores.

Apesar de ter resultado em uma grande polarização da opinião pública, a estratégia foi bem sucedida, pois pode contar com o apoio de mais de 50% de votos – o que os guiou a vitória, evidentemente.

Em termos de marketing de conteúdo, o PT seguiu a cartilha: segmentou a sua base, definiu as suas personas e fez conteúdo especializado para converter as personas em clientes.

Bônus – Oposição fraca

Muitos dos que acompanham o blog há muito tempo, sabem que alguns dos membros da Outbound Marketing possuem background em economia.

Por isso, preferimos fazer uma análise racional dos fatos do que a emocional.

Infelizmente, a oposição, na figura do PSDB, parece não seguir essa linha. Para quem não se lembra, o plano Real, que acabou com a hiperinflação no Brasil, surgiu quando FHC era ministro da fazenda no governo Itamar Franco.

Já as privatizações melhoraram, e muito, a qualidade dos serviços oferecidos pelas antigas estatais. Uma linha de telefone custava mais do que um carro na época, para se ter uma noção.

Isso sem contar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que antes de ser ignorada pelo governo Dilma, trouxe um ganho de credibilidade imenso para o país.

Outro ponto que as pessoas insistem em ignorar é o bolsa escola, gás e etc, iniciativas dos tucanos, que unificados pelo PT se tornaram o Bolsa Família, apesar de que foi o partido vermelho o responsável pela unificação e massificação dos programas.

Qualquer pessoa racional pensaria: esse é um bom legado de ser abraçado! Mas ao invés de fazer isso, nas campanhas de 2002, 2006 e 2010 foram temas completamente ignorados pela oposição.

Apenas em 2014 essas bandeiras voltaram a ser defendidas, e mesmo assim, com pouco afinco.

Então, uma oposição que tem dificuldade de defender o seu legado, e tem relativa vergonha dele, sabe-se lá por que, é o ambiente perfeito para um bom marketeiro político fazer a festa.

E o resultado disso é ruim para qualquer tipo de instituição democrática, visto que não há um diálogo voltado para melhorias em processos, independente de qualquer ideologia ou partido.

Conclusão

A política é um jogo engraçado. Normalmente, falamos que um rei só não perde a majestade quando sai por cima, mas, o que estamos vivendo no país prova que essa frase não é real como um todo.

Em vendas, a realidade é de certa forma semelhante. Um trabalho mal feito, com poucas bases sólidas, pode se sustentar até no médio prazo.

Mas no longo prazo, as coisas se ajustam. Pode surgir um concorrente que venda de fato o sonho que você ofereceu e não cumpriu.

Ou mesmo seus clientes podem perder a paciência com você e se cansarem.

É imprescindível que tanto em marketing e vendas quanto na vida que as expectativas ofertadas estejam alinhadas com a entrega.

No final das contas, o que importa é o resultado, o famoso money talks. Se você não conseguir realizar isso para seus clientes, a chance deles pedirem o seu impeachment é alta.

No mais, deixo para o PT e também para todos aqueles que coloquem as metas acima da qualidade da entrega a seguinte frase:

“Quem quer que lute contra monstros, deve prestar atenção no processo, para não se tornar um deles. E se você olha durante muito tempo para o abismo, o abismo irá olhar de volta para você”